Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

Quando ela partir, já nada me prende a nada.


- "Sabe, nós só nos conhecemos há pouco tempo. 50 anos, nada mais..."

Diz ele enquanto sorve docemente mais uma colher de sopa dentro da boca dela.

- " Ai, sim?"

Digo eu.

- " Sim, estamos juntos há 50 anos e já há 4 que sou eu que trato dela. Ela é tudo o que tenho e a única razão que me prende a este país que detesto."

- "E o que foi que lhe aconteceu?"

- " Era um cascão na ponta da língua. O médico olhou para isso e disse que ela tinha de ir ao dentista. Acabou por ser um cancro, tirou a língua e ela nunca mais me falou. Mas sabe menina? Eu sei sempre o que ela quer, ontem por exemplo, ela tinha vontade de ler, hoje gosta muito da maçã triturada. São 50 anos, sabe? E ela é tudo o que tenho. Quando ela partir, já nada me prende a nada"


De vez em quando tenho uma visão diferente do hospital, a vida coloca-me inevitavelmente do outro lado da cortina. E a verdade é que por vezes, é tão mais gratificante do que o lado a que estou acostumada. Hoje foi um desses dias.

Sábado, Fevereiro 06, 2010

Ele há dias assim.



Ele há dias em que apesar do sol, do rio à nossa frente e do amor da nossa vida deitado ao nosso lado, tudo nos parece tão negro.
Ele há dias em que tomamos consciência que os ponteiros do relógio prosseguem segura e inevitavelmente o seu caminho, sem que essa seja a nossa vontade.
Ele há dias em que apesar do cansaço, não conseguimos dormir.
Ele há dias em que a doença de quem nos é querido nos consome e que todo o nosso conhecimento científico, só serve para nos angustiar ainda mais.
Ele há dias assim.
Eu sabia que eles existiam.
Eu sabia que eles iam chegar.
Eles chegaram e eu não estava preparada.

Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

Pronto, agora fiquei um bocadinho indecisa.

E ainda continuando com os Grammys...


... será que foi aquela porrada toda que ela levou do ex, que a fez pensar que era um galo?

Eles lá têm a Pink para montar o circo.



Nós cá temos o Sócrates e a palhaçada da censura!
Abençoada emigração. Ao menos que se safem alguns.

Domingo, Janeiro 24, 2010

Masculino não identificado


Ele está deitado numa maca há 5 dias, em estado de coma.
Foi atropelado enquanto andava de bicicleta.
Não tem identificação e ninguém o procurou.
Não chegam visitas na hora autorizada.
Não tem familiares ou amigos identificados pela polícia.
Não tem identidade reconhecida.
Ele é ninguém.

Mas sendo ele ninguém, foi ele que mais me fez pensar ao longo de todo um domingo de trabalho. Fez-me pensar que somos todos ninguém, sem as pessoas que nos rodeiam.
Sem essas não somos mais que um número numa maca, à qual se administra medicação à hora marcada. Não somos pais, irmãos ou amantes de alguém. Não somos gestores, programadores, professores ou médicos. Não somos portistas, benfiquistas ou vitorianos. Somos, de uma forma crua, fria e assustadora, o masculino não identificado.


Como mãe há só uma (e a minha é a mais, melhor, boa, do mundo e talvez da Europa!)


Vamos lá todos fazer figas e mandar energias positivas para uma cirurgia tranquilinha amanhã. Bora?

Sábado, Janeiro 23, 2010



"In this great future, you can't forget your past, so dry your tears, I say."


Bob Marley